Entrevista de João Ermida ao Público

 

Recomendo a leitura e reflexão da entrevista que João Ermida (na foto), especialista em mercados financeiros, gestor e autor de livros e artigos, sobre a crise que vivemos e a necessidade de serem efectuadas mudanças. Agradeço ao meu amigo e Board Advisor da Gesventure, Dr. António Albino Freire, o envio desta entrevista tão interessante.

Para o antigo responsável global da tesouraria e dos mercados financeiros do grupo Santander, é fundamental haver novas exigências ao nível da regulação.

PÚBLICO – Quando é que o sistema financeiro deixou de pensar que tinha de prestar um serviço, passando a vender produtos numa lógica de mercearia, como refere no seu novo livro?

JOÃO ERMIDA – A mudança ocorre nos anos 80, mas principalmente na década de 90. Acho que desde há 15 anos a banca deixou de ter a noção do que é que era um serviço. O mercado financeiro exigiu de si mesmo e das empresas que analisa resultados vorazes. Neste momento, felizmente começa-se debater mais a questão de qual é a responsabilidade das empresas, se é de só entregar lucros aos accionistas, ou se é também servir bem os seus clientes e empregados.

 

Esse é o problema?
Para mim, é a grande questão. Nos anos 70 começou-se com as opções sobre compras de acções [stock options], a seguir vieram os anos 80, com a desregulamentação dos mercados financeiros, e depois a voracidade dos resultados. Tudo isso é possível, mas se se conseguir manter uma estabilidade com os colaboradores e clientes. Acontece que foi feito tudo ao contrário, e a questão de entregar resultados aos accionistas foi claramente, e muitas vezes, contra o interesse dos próprios clientes e dos trabalhadores. Hoje, o que vemos, nestas grandes empresas, são colaboradores muito mais desmotivados e clientes que muitas vezes têm se de cingir às propostas que existem porque a concorrência diminuiu imenso.

 

Procurando a origem, e os culpados, encontramos então a resposta nos anos 80, nas opções políticas tomadas nessa época, como a desregulamentação, e o uso que foi feito?
Eu diria que sim. Esta necessidade voraz, com a assunção de que só o accionista é que o rei, que faz com que os bancos exijam a si próprios crescimento da ordem dos 20 por cento, e a exigir o mesmo às empresas que analisam, de modo a dar uma recomendação de compra aos investidores sobre as suas acções, transformou tudo isto num campo minado. Como é que se cresce, se não for apenas a cortar nos custos ou encontrando soluções de vender aos clientes, não aquilo que eles precisam, mas o que dá maior retorno a quem está a vender, tudo muito bem empacotado, como se fosse uma caixa Kellog”s?

 

Por que é que acha que se fez tão pouco desde que a crise estalou, em áreas como a regulamentação?
As pessoas só mudam na dor.

 

Bom, essa já chegou…
A dor ainda não foi suficiente. Existe um erro, que foi adoptado nesta crise, tal como sucedeu nas anteriores. Desde que esta grande desregulamentação começou nos mercados financeiros, temos andado de crise em crise, desde os anos 80. E todas elas tiveram a mesma receita. Na crise asiática, baixaram-se as taxas de juro, na crise russa também, veio a das empresas da Internet, a Fed baixou as taxas de juro, tendo Alan Greenspan sido apelidado de “mago”, por fazer algo que qualquer um poderia ter feito.

 

Como assim?
Num cenário em que as pessoas têm menos confiança, desce-se as taxas de juro e, pensa-se, o problema resolve-se por si mesmo. Na verdade, essa é uma receita que pode até resultar, mas se não houver uma mudança de comportamentos associada… Se há sempre quem me vá salvar dos meus excessos, mais tarde ou mais cedo, porque é que eu hei-de parar? Enquanto houver comportamentos destes, não há dor, não se sofre essa dor na conta de resultados. E verifica-se que essa tendência continua a nível mundial. A questão é saber quanto dinheiro existe no mundo para se fazerem planos de resgate da ordem dos 150 mil milhões de euros.

 

Falou em verdadeira dor no balanço. Quem tem de sofrê-la é o sistema financeiro?
Não acho que seja o sistema financeiro a sofrer sozinho essa dor. O mundo tem estado muito desequilibrado. Os equilíbrios que se conseguem são ténues, com as descidas das taxas de juro, sem regulamentar absolutamente nada. Pelo que as pessoas vão trabalhar no dia seguinte com a noção de nada mudou, trabalhando da mesma maneira. E isso leva a que, quem estiver sentado numa mesa de trading em Nova Iorque, pense que se nada está a mudar, vale a pena especular contra isso. O risco que temos é que haja 40 ou 50 investidores a nível mundial cuja única missão é olhar para os problemas que estamos a criar, e esses vão ganhar muito dinheiro, naturalmente, com a falta de vontade política de uma verdadeira mudança. E há investidores preparados para isso.

 

E acha que pode haver uma alteração através da regulamentação?
Não acredito na mudança sem regulamentação. Gostava muito que as pessoas se reunissem à volta de uma mesa e percebessem que é necessário mudar, sem que ninguém regulamentasse. Mas há uma geração que se habitou a viver de determinada forma, que observou as bolsas a quintuplicar, passando de três mil pontos, no Dow Jones e durante os anos 80, para catorze mil pontos. E acha que tudo é possível. Esperar que mudem os comportamentos sem haver regulação ou dor, acho pouco provável.

 

Como é que se pode implementar uma regulação eficaz, se cada Estado tem a sua própria posição?
Se nada mudar, daqui a três anos vamos ter uma crise pior, porque se puseram mais minas no campo. A existência da nossa civilização no século XXI depende de um sistema financeiro, a nível mundial, perfeitamente estável. Nós hoje não vivemos de poupança, vivemos de crédito. Se este se fecha, a nossa capacidade manter empregos ou de crescer, enquanto sociedade, diminui. Se o sistema financeiro não controla os seus próprios riscos, mais tarde ou mais cedo haverá uma situação parecida com a de 2008, mas muito mais grave. Até porque já existe, por parte do aforrador, uma grande desconfiança face aos bancos, que são o pilar do nosso sistema de civilização.

 

Acha que a mudança virá através dos EUA?
A Europa tentou liderar um processo de regulação. Os Estados Unidos olharam e pediram que fosse feita uma proposta por escrito, e perceberam que isso não ia acontecer, que o que tinham eram diversas vozes, vários governantes a tentar brilhar no meio da situação. Acho que vamos seguir na Europa o que os EUA vierem a fazer.

 

O que é que acha que propagou a crise da Grécia ao resto da Europa?
Com tantas notícias, as pessoas esquecem-se do que aconteceu no passado. As mesmas pessoas que atacam o euro foram as mesmas que falaram contra a criação da moeda única. A diferença é que antes eram mais novas e hoje têm sessenta, setenta anos, como é o caso de diversos prémios Nobel. A questão é a do cepticismo, que já existia há dez anos, mas que tinha esmorecido, face à valorização do euro face ao dólar. Hoje, os EUA têm uma economia claramente em recuperação, e interessa ter um dólar mais forte.  Ao mesmo tempo, há como que uma necessidade natural de testar o euro, se a Europa tem vontade de continuar com uma moeda única ou se isto é tudo uma falácia que se pode desmoronar rapidamente.

 

E pode?
O certo é que a Europa não tem dado uma vida muito difícil a quem quer especular. Primeiro,
porque toma as decisões à última hora, num acordo a 27, que não é dos melhores, mas em que já se fica contente por ter existido um acordo. Segundo, quem tem de controlar as finanças públicas de um país, o Eurostat, mostra que não o consegue fazer, como se viu no caso da Grécia, que forneceu dados errados.Isso irrita muito, obviamente, quem está a investir. E faz com que aqueles 40 ou 50 investidores, que só estão no mundo, alavancados, à espera que ocorram más notícias…

 

Os abutres, portanto…
O que acontece é que o número de abutres multiplicou-se e as pessoas têm de entender que isso sucedeu e que existe. E que eles querem mesmo é testar ao máximo a capacidade de reacção de um país. E nós estamos a servir-lhes um prato fácil, ao não haver uma voz única.

 

Houve lentidão no caso grego?
Custa-me acreditar que todos estivessem enganados no caso grego. Não foi de um dia para o outro que se percebeu que o défice era daquela magnitude. Tal como se sabe que Portugal vive muito além do que pode, e que o crescimento de Espanha tem por base uma especulação imobiliária e importava muito mais do que exportava, com um défice brutal. Nada disto é novidade. A questão é que, se não existir regulamentação e controlo, fica-se sempre a pensar que se vai ser resgatado. Existem fragilidades, que estão agora a ser exploradas, como se mexessem numa ferida que já existia…Quando se diz que um país precisa de cerca de 150 mil milhões de dólares para ser resgatado, tanto o investidor como o especulador ficam preocupados, porque sabe-se que não existe idêntica quantia para todos.

 

Por que se parte do princípio que esse montante pode ter que ser replicado noutros países, como Espanha e Portugal, por exemplo?
A questão é que, do lado do investidor, que tem muita dívida grega, se ele olha de repente para o montante que foi necessário e questiona se tudo fica por ali ou não, a vontade de investir nos outros países diminui. Estando já muito expostos, ficam mais defensivos, não aumentam o investimento e isso é um risco numa altura em que os Estados estão a precisar de emitir muito mais dívida do que no passado.

In Público, 17/05/2010

 


Licenciado e Mestre em Gestão de Empresas. Presidente da Gesbanha, S.A., especialista em capital de risco e empreendedorismo, investidor particular ("business angels") e Presidente da FNABA (Federação Nacional de Associações de Business Angels). Director da EBAN e da WBAA

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