Entrevista à jornalista Cátia Mateus do Jornal Expresso no âmbito da VI SNBA

VI Semana Nacional de Business Angels

VI Semana Nacional de Business Angels

No âmbito da VI SNBA, fui convidado pela jornalista do Semanário Expresso, Cáta Mateus, a pronunciar-me sobre os objectivos desta iniciativa mas também sobre o Ecossistema Empreendedor português:

 

1. Como avalia esta propensão dos jovens portugueses para empreender, na atual conjuntura?

As mentes empreendedoras questionam a realidade e ao verificar-se que os jovens estão mais propensos ao empreendedorismo significa que estes estão inconformados com a atual situação das coisas e querem de alguma forma mudar a sua vida e até a sociedade que os rodeia. É isso aliás que vemos nos movimentos de “acampados” um pouco por todo o mundo: jovens inconformados que procuram uma mudança. Se bem que alguns esperam que a mudança parta da sociedade (esse termo tão genérico e indefinido), outros tomam-na como desafio pessoal e criam novas iniciativas (empresariais ou não) com vista a estimular a mudança com as suas próprias mãos.

 

2. Acredita que a adversidade económica e a dificuldade em conseguir emprego no país terão motivado uma apetência maior pela iniciativa empresarial? Ou será o país que tem hoje mais estruturas de apoio do que há alguns anos atrás?

Concordo que existem hoje mais estruturas e sobretudo mais meios de apoio como sejam os gabinetes de empreendedorismo, agências de desenvolvimento locais, ninhos de empresas, aceleradoras de negócios, incubadoras e parques tecnológicos assim como alguns programas específicos de financiamento à actividade empresarial quer esta seja de base local ( Microcrédito e Finicia) quer de base tecnológica ( Business Angels, Fundos de Venture Capital ). Contudo e apesar de uma recente e positiva dinâmica como no crescente número de business angels activos e nos investimentos que os mesmos já se encontram a realizar, a realidade é que muitos negócios precisam em algum momento de suporte da banca e esta não está a corresponder. Julgo, por isso, que as duas vertentes se anulam mutuamente. Por esse motivo, devo reconhecer que é precisamente o cenário que vivemos que leva as pessoas a questionar-se e a encontrar as novas necessidades dos consumidores – que vivem eles (nós) também um período diferente – o que origina naturalmente novas oportunidades de negócio. A isto acrescento ainda que devido ao desemprego existente e às reduções de vencimentos, o custo de oportunidade para empreender é agora bastante mais baixo dado que “o emprego” não é já tão apetecível e seguro.

 

3. O que é que na sua opinião ainda limita os jovens portugueses a abraçar uma carreira como empreendedores?

Independentemente das ofertas existentes no mercado português de apoio ao empreendedorismo, quer estas sejam materiais quer financeiras, o facto é que a generalidade dos jovens portugueses admitem não estar bem informados sobre as oportunidades de formação existentes para empreendedores e na minha opinião até com alguma razão uma vez que tem existido um défice muito grande na falta de informação e comunicação por parte das diversas entidades que fazem parte do Ecossistema Português de Empreendedorismo.

Todos sabemos que neste momento existem muitas oportunidades mas também muita incerteza. Ora este facto faz com que seja mais do que consensual de que a educação e a formação são factores relevantes para se poder exercer uma actividade empreendedora pois só assim podemos mitigar os riscos que se encontram associados à implementação de qualquer negócio.

Por outro lado com a confiança dos consumidores no mínimo e carteiras vazias, é preciso pensar muito bem antes de investir num novo negócio, em abrir uma loja, em contratar pessoas, etc. Fora isto, como referi, as estruturas estão lá e talvez seja possível concretizar os negócios com um apoio mínimo da banca encontrando novos modelos de negócio mais compatíveis com os recursos existentes. Um exemplo: não tem capacidade para investir na renda de uma loja? Vende apenas on-line.

 

4. Que medidas considera prioritárias no país para fomentar mais o espírito empresarial e apadrinhar estes jovens na sua iniciativa?

Ainda estamos numa fase de desenvolvimento do empreendedorismo que carece sobretudo de motivação. Por esse motivo, mais informação, mais formação e sobretudo maior envolvimento desde as idades mais jovens é a minha receita para continuarmos a apostar em novas gerações com uma cultura empreendedora mais criativa, mais conhecedora e mais global.

 

5. Que cuidados é necessário ter quando se escolhe empreender em tempo de crise?

Por esta altura é recomendável uma grande dose de racionalidade. Quero com isto dizer que um plano de negócios sólido e credível deve ser o ponto de partida para qualquer iniciativa. O próprio modelo de negócio tem de ser bem adequado aos recursos do empreendedor e à flexibilidade que é exigida nos tempos mais difíceis. Incluo aqui a atenção à tesouraria da empresa, nomeadamente ao controlo sobre os recebimentos de clientes.

 

6. Como se podem minimizar as hipóteses de fracasso e mortalidade dos negócios?

Nos negócios em que tal se aplique, julgo que a presença de um business angel pode trazer alguma tranquilidade pela experiência de gestão que estes habitualmente têm ou conhecimentos mais maduros que possuem num sector específico. Regra geral, como referi, um plano de negócios credível e inteligência na escolha do modelo de negócio podem fazer toda a diferença.

 

7. Fala-se muito em empreender e até o Governo tem apontado o empreendedorismo como uma potencial solução para o desemprego nacional. Partilha desta visão? Não considera que algum modo poderá ser “inconsciente” motivar os portugueses para essa via, sem os alertar que ela também tem riscos e taxas de mortalidade significativas?

Por mais que defenda que todos nós podemos e devemos ser empreendedores nas nossas vidas, reconheço que nem todos têm as capacidades de aplicar essa competência na criação e gestão de uma empresa. Percebo o que o Senhor Primeiro Ministro quer dizer com termos todos de sair da nossa zona de conforto e – de alguma forma – empreendermos. Julgo que cabe a cada um refletir sobre as suas competências e saber que tipo de “empreendedorismo” deve adotar: criar uma empresa? reconverter-se profissionalmente? Renegociar as suas funções como a direção da empresa? mudar de região ou até mesmo de país?

A frustração, como catalisador da iniciativa empreendedora pode ser positiva em alguns casos nomeadamente quando se identificou uma oportunidade e se possui um Plano de Negócios elaborado que permita antecipar as acções que se tem de satisfazer para a implementar.

Ora numa Sociedade que pouco ou nada tem feito para estimular a informação e a formação em empreendedorismo, como uma forma de estar na vida, dificilmente encontraremos indivíduos ou grupos de indivíduos que de momento para o outro se vêm em situações de desconforto com oportunidades detectadas e com um plano de negócios para a implementar quer aqueles sejam quadros de uma multinacional ( como foi o caso dos engenheiros portugueses que trabalhavam na Quimonda) quer operários de uma linha de produção que visem lançar negócios de necessidade a nível local.

De facto um quadro de uma empresa que durante anos exerceu a função de director de produção em face de uma eventual perda de emprego e perante os discursos inspiradores dos leaders de opinião e dos sistemas de incentivos existentes pode sentir-se tentado a colocar em prática uma determinada ideia de negócio com base no know How que possuía da experiencia como empregado.

Contudo comprar, vender, cobrar,financiar, determinar custos e preços é algo mais do que gerir uma unidade de produção e por isso é conveniente ter presente que se o desejo de demonstrar a terceiras pessoas e a nós próprios que o facto de estarmos desempregados não é um sinal de fracasso por outro lado é importante ter presente que podemos ser empresários mas não nos podemos esquecer que se as coisas não estiverem bem fundamentadas o fracasso que daí advém pode ser muito mais preocupante do que a “mera” perda de um emprego.

 

8. Que tipo de negócios podem vingar em Portugal na atual conjuntura?

Apenas um: negócios que preenchem necessidades não satisfeitas. Esta deve ser a primeira e a última pergunta de qualquer pessoa que esteja a pensar criar um novo negócio: o serviço é realmente útil? Consigo construir uma oferta de valor mais forte do que as empresas que já servem o sector? Qual é o valor do meu serviço para os meus futuros clientes? Este é o tipo de raciocínio que deve orientar mentes empreendedoras. Responder a estas perguntas é equivalente a meio plano de negócios!


Licenciado e Mestre em Gestão de Empresas. Presidente da Gesbanha, S.A., especialista em capital de risco e empreendedorismo, investidor particular ("business angels"). Director da EBAN e da WBAA

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