EASY Investment Forum Milão

Aproveito também para partilhar com todos as informações que forneci ao jornalista Marc Barros da Vida Económica sobre a participação portuguesa no EASY Milão (Early Stage Investment Forum).

4/03/08

– Que balanço fazem do encontro?

O balanço é, sem dúvida, positivo. Tratou-se de uma excelente forma de conhecer oportunidades de investimento que estão ainda numa fase inicial de desenvolvimento e, por esse motivo, representam um elevado potencial de valorização. Não me refiro apenas às 22 que se apresentaram no evento mas também às outras 30 que não foram seleccionadas, bem como a 15 outras empresas italianas que aproveitaram o evento para se apresentar numa iniciativa paralela ao EASY (www.earlystageinvestors.org). Tivemos também oportunidade de fazer algum networking com outros investidores interessados nestas fases de desenvolvimento (early stage e start-up), o que representa uma troca de experiências muito rica em termos de práticas se tivermos em conta que estiveram lá investidores de 11 países de toda a Europa.

 

 

 – Quais os resultados concretos alcançados?

Em primeiro lugar o aumento significativo da aprendizagem por parte de dezenas de empreendedores sobre a compreensão da natureza dos investidores, os seus objectivos e motivações que se encontram por detrás dos investimentos que estes realizam.

 

Por outro lado a espectacular projecção internacional que o projecto português (Ortik – www.ortik.net) que lá foi apresentado teve, não só ao nível da angariação de capital como também da exposição de produtos e serviços que se destinam na sua generalidade à satisfação de necessidades no mercado Global.

 

Na vertente pessoal, eu próprio na qualidade de Business Angel e representante da FNABA, aproveitei a oportunidade para conhecer e interagir com outros investidores a quem poderei futuramente apresentar projectos para investimento em operações sindicadas, isto é, com o envolvimento de Business Angels de diversos países europeus.

 

Importa no entanto referir que os resultados deste tipo de iniciativas surgem apenas a médio prazo, uma vez que o processo de negociação pode demorar alguns meses. A título de exemplo, concretizou-se apenas em Janeiro o investimento de um Business Angel italiano na francesa Lisa Airplanes cuja apresentação tinha decorrido no fórum de Helsínquia em Junho.

 

Por esse motivo e tendo em conta a continuidade dos contactos gerados nos fóruns do EASY, é com elevada expectativa que antecipo já o próximo Fórum em Barcelona que decorrerá no mês de Abril, bem como seguinte, em Junho, em Londres.

 

 

 

 – Esta é uma forma importante de obter financiamento internacional?

Os Fóruns do EASY são um “atalho” na árdua caminhada que é a angariação de capital internacional. Para além do vantajoso acesso a um conjunto de ferramentas e consultoria que permitem aos empreendedores melhorar o seu plano de negócios, estes têm ainda uma excelente oportunidade de se apresentar a uma plateia que ronda os 150 investidores com quem podem realizar sessões particulares tendo em vista “abrir mais o jogo” e despoletar contactos futuros. A via tradicional obrigaria a deslocação dos empreendedores a cada um dos países para estabelecer contactos individuais, acesso a intermediários, para não falar do desgaste físico e material. Precisamente por isso é que a União Europeia, através da sua iniciativa PRO-INNO (www.proinno-europe.eu), decidiu apostar na agilização deste processo, concedendo às Start-Ups as mesmas condições que estão normalmente à disposição de apenas grandes empresas.

 

 

 – Quais os principais obstáculos com que se depara uma empresa ou
 empreendedor portugueses para se financiar no exterior?

Antes de mais, qualquer empresa para angariar capital no exterior tem de se assumir como global e isso reflecte-se desde logo na forma como a empresa perspectiva o seu modelo de negócio, o qual tem de suportar a ambição de liderança num determinado segmento de mercado através de uma solução que permita mudar os hábitos dos clientes em diversas áreas geográficas. Tal facto obriga a que o empreendedor tenha de identificar clientes com necessidades ainda não satisfeitas em vez de somente alcançar um novo nível de desempenho, promover melhorias incrementais, atender melhor as actuais expectativas ou acrescentar mais um produto/serviço à gama de produtos/serviços já existentes. (vide como exemplo os casos mais conhecidos como a Amazon.com, Skype, Google ou mesmo Ebay.

 

Para além disso, é necessário que os investidores consigam ver na equipa empreendedora as competências – tecnologia, relacionamento com clientes, acesso e agilidade de âmbito global e capital intelectual – necessárias para conseguir que a sua ideia possibilite uma razoável velocidade de chegada ao mercado, tendo em conta os objectivos traçados para o referido mercado global.

 

Perante este enquadramento, torna-se importante que os empreendedores tenham, urgentemente, consciência, o que infelizmente nem sempre acontece, que a actual força motriz da globalização depende do estabelecimento de inúmeros recursos e parcerias entre diferentes países para os quais os empreendedores pretendem lançar os seus produtos e serviços. Ora sendo a comunidade Mundial de Business Angels uma das entidades melhor posicionadas para suportar a indispensável “explosão” súbita no crescimento global destas start-ups, importa que os empreendedores conheçam e interajam com os Business Angels para que possam beneficiar de um excelente parceiro na obtenção de capital e na diversificação de risco.

 

 

 – Comparativamente com outros países europeus, o capital de risco tem
 ainda bastante caminho para se desenvolver em Portugal?

Temos de possuir a coragem para reconhecermos que a indústria de capital de risco não conseguiu ainda resolver aquela que é a principal causa do seu atraso estrutural: a ausência de execução. Efectivamente, durante o 2º semestre de 2006 e o 1º semestre de 2007, o número de projectos efectivamente financiados com o recurso a capital de risco e v
ia Business Angels, voltou a ser quase incipiente.

 

Apesar de no domínio conceptual se terem verificado algumas alterações bastante significativas, o facto é que ao nível da sua execução continua a existir um grande obstáculo ao sucesso de um modelo favorável ao Empreendedorismo e a principal causa da ineficácia das acções adjacentes ao referido modelo.

 

Com efeito, na vertente do Venture Capital (financiamento de projectos cujo ciclo de vida se encontra nas fases iniciais) assistiu-se à criação de um instrumento de apoio ao lançamento de novos negócios designado por Programa Finicia. Na sua essência  este programa permite que ideias que visem criar  protótipos de novos produtos ou novos modelos de negócio possam captar a atenção de uma Sociedade de Capital de Risco (SCR) (por exemplo a INOVCAPITAL) que poderá aportar até 45.000 euros devendo o Empreendedor colocar no mínimo 5000 euros. Por sua vez, as start-ups que pretendam reforçar o seu posicionamento no mercado nacional ou internacional  através de um projecto de desenvolvimento poderão ser alavancadas por parte da INOVCAPITAL até ao montante de 850.000 euros devendo o Empreendedor possuir a quantia mínima de 150.000 euros quer só quer na companhia de Business Angels.


Em relação aos
Business Angels, foi importante a publicação do Decreto-Lei nº 375/2007 de 8 de Novembro que reconhece o Estatuto de Business Angel com a criação da figura do ICR (Investidor de Capital de Risco). Trata-se de um acto importante pois concretiza um primeiro passo no reconhecimento dos Business Angels e do seu papel na promoção de novos projectos empresariais, bem como o seu contributo para o desenvolvimento do capital de risco e do emprendedorismo em Portugal.

 

Porém, apesar dos aspectos positivos, a actual legislação ainda não é suficiente para contribuir para um aumento do número de BA no nosso País uma vez que do ponto de vista fiscal, o Orçamento Geral de Estado de 2008, não se revela, muito interessante para os Business Angels.

 

A propósito, penso que todas as entidades envolvidas neste importante processo deveriam reflectir sobre o porquê de até ao momento ainda não se ter registado um única inscrição de um Investidor de Capital de Risco (ICR) na CMVM, contrariando assim as expectativas inicialmente criadas com a publicação do citado decreto-lei.

 

Estamos, assim, ainda com falhas na aplicação de capital nas fases iniciais de financiamento, muito aquém, portanto, de economias que já perceberam como se financia a cadeia de valor do conhecimento que em alguns aspectos está a ser estimulada mas que noutros ainda requer alguma atenção.

 

 

 – A quem compete esse missão – às empresas, à banca, ao Estado, ou a
 todos os interessados em comum?

 

O desafio compete à criação de um ecossistema cada vez mais favorável que necessariamente envolva vários agentes e assegure mecanismos de captação de liquidez em articulação com o mercado de capitais ao mesmo tempo que sensibiliza as empresas para a importância desta ferramenta de capitalização.

 

Ao Estado cabe, naturalmente, preservar a envolvente propícia ao correcto funcionamento dos mercados e, mais selectivamente, a pró-actividade requerida em áreas onde reconhecidamente se detectem falhas de mercado.

 

A título de exemplo, ao nível dos Business Angels, há alguns passos a dar ainda pelo Estado, sendo necessário reduzir a carga fiscal inerente aos investimentos, nomeadamente através de um mecanismo de crédito de imposto, bem como pela operacionalização de fundos de co-investimento entre o Estado e os Business Angels . O exemplo em Inglaterra onde anualmente são deduzidos mais de mil milhões de libras, demonstra a força e o sucesso de uma política virada para a dinamização do tecido económico nomeadamente ao nível das PMEs, essencialmente nos estágios de seed e start-up”.

 

Mas os exemplos não se ficam apenas pelo domínio público. No sector privado deposito também alguma esperança no potencial de “Corporate Venturing” do nosso PSI 20. O corporate venturing tem uma grande implantação como estratégia de crescimento nos Estados Unidos. Em contrapartida, na Europa, e nomeadamente em Portugal, esta metodologia não é tão utilizada, e isto pode ser uma consequência da menor relevância dada ao investimento de capital de risco na Europa relativamente aos Estados Unidos. Face à necessidade imperiosa de crescimento com que se debatem os grupos económicos portugueses, nomeadamente os que se encontram inseridos no PSI-20 ou mesmo no mercado Euronext, sou da opinião que os mesmos devem encarar com bastante urgência a possibilidade de criação das suas Corporate Ventures que lhes permita ter acesso a um fluxo ininterrupto de produtos e serviços inovadores que contribuam não só para o seu crescimento e rentabilidade mas também para a renovação do tecido empresarial português através do suporte à criação de empresas constituídas por jovens empreendedores portugueses, proporcionando a estes uma alternativa mais ambiciosa do que serem empregados das citadas filiais das multinacionais instaladas em Portugal.

Assim, formar relações de corporate venturing afigura-se como sendo uma forma exequível para as grandes empresas desenvolverem e alargarem os seus negócios sem a necessidade de adquirir outras empresas, e uma forma para as PMEs crescerem mais depressa do que poderiam sem o recurso a esta forma de financiamento. Estou convicto de que uma EDP Ventures, Galp Ventures, Jerónimo Martins Ventures, PT Ventures, Pararede Ventures, Sonae Ventures, entre outras, poderiam permitir um conjunto de descobertas que transformariam o difícil trabalho de criar inovações tecnológicas a partir do nada em tarefas sistemáticas de identificar empresas ou pessoas que desenvolveram elementos de inovações tecnológicas comercialmente atraentes. Ora, tal iria seguramente provocar um efeito demonstração suficientemente atractivo que conduziria pelo menos as empresas de média e grande dimensão a encarar com outra atitude o seu posicionamento perante a importância da inovação na criação dos factores críticos de sucesso essenciais à diferenciação dos seus produtos e serviços tão essenciais à criação de riqueza no nosso País.

 


Licenciado e Mestre em Gestão de Empresas. Presidente da Gesbanha, S.A., especialista em capital de risco e empreendedorismo, investidor particular ("business angels") e Presidente da FNABA (Federação Nacional de Associações de Business Angels). Director da EBAN e da WBAA

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