Criar uma “start-up” para o Estado?

Artigo de Nuno Carvalho, líder do Projecto Zonadvanced do qual sou business angel:

Vale a pena criar uma empresa quando o produto ou serviço que se vai vender é dirigido apenas a um cliente, sendo este o Estado? O risco é elevado, mas há formas de o reduzir.

A ideia surgiu há mais de 4 anos, com o projecto 112 Video. Um projecto que habilita a comunicação vídeo do telemóvel para o centro de atendimento do número de emergência 112.

Um projecto de âmbito nacional e do interesse público, esta foi a ideia de negócio que deu origem à empresa Zonadvanced. O projecto angariou capital, e a aposta veio de diferentes investidores, Inovcapital e "business angels" portugueses. Todos acharam interessante e participaram no capital da empresa.

 

Mas será que uma ideia deve passar a negócio quando se tem como único cliente o Estado? À partida, parece arriscado, mas vejamos o que dai advém e como podemos criar valor e continuar a acreditar na nossa ideia inicial.

Foi em 2004 que me surgiu a ideia do 112 Video e, desde então, não parei mais. O produto foi apresentado em Bruxelas e em Portugal, onde fui premiado, para além das reuniões que tive com a Comissão Europeia. Desde muito cedo fiz reuniões com presidentes de operadoras de telecomunicações, secretários de Estado, presidentes e coordenadores do 112 em Portugal, além de várias entrevistas em jornais e televisões.

Mas por que é que o projecto ainda não está implementado em Portugal? Uma ideia validada por todos, útil e necessária ao país. A resposta até é obvia. Todos os projectos feitos para vender ao Estado, e sobretudo aqueles que apresentam uma componente inovadora elevada, carecem de muito tempo para a sua implementação.

O Estado é uma máquina muito pesada e complexa, que demora muito tempo a avaliar as propostas que lhe chegam. Por outro lado, tem de se chegar no momento certo, ou seja, quando a "moda" é evoluir no 112, e não quando a "moda" aponta noutras direcções como, por exemplo, o "Magalhães". São "modas" e circunstâncias que podem ajudar a que o nosso negócio avance com mais ou menos velocidade.

Um dos prémios que ganhei foi através da European Emergency Number Association (EENA), uma associação Europeia que se dedica a melhorar o funcionamento do 112 em toda a Europa.

Aproveitando a ideia do 112 Video, este ano a EENA conseguiu reunir várias empresas e governos da UE, para angariar capital de fundos comunitários para desenvolver, precisamente, o projecto do empreendedor português, o 112 Video.

Hoje, a EENA conta com financiamento da CE para seis países, em que, infelizmente, o governo português não aceitou participar. Mas não é por isso que perco a esperança, muito pelo contrário, são "erros" como este que devemos aproveitar para repensar e ajudar o nosso Governo a reflectir sobre a perda de oportunidade que estamos a enfrentar. Como diz o ditado popular, "mais vale tarde que nunca" e é o nunca, que como empreendedores, devemos tentar evitar. Continuo a acreditar que um dia Portugal contará com um 112 em vídeo evoluído, graças a uma ideia empreendedora.

Mas a questão que coloco é: devemos iniciar a nossa empresa, tendo como cliente único o Estado? Depende. Se pensarmos que o projecto 112 Video foi a razão da constituição da empresa, então a resposta é afirmativa, mas se a razão da existência da empresa é apenas este projecto, a resposta será negativa. Temos de saber avaliar e ponderar como abraçamos um projecto, e de que maneira enfrentamos as naturais barreiras que iremos encontrar num negócio que depende de um único cliente, como o Estado, que necessariamente associa um risco elevado à empresa.

A chave pode passar por muitas estratégias diferentes, como mostrar que somos capazes de concretizar o nosso projecto inicial, mantendo ao mesmo tempo a empresa activa com outros projectos que beneficiem do conhecimento que a equipa adquiriu no desenvolvimento do projecto inicial, ou na aposta continua do desenvolvimento, até chegarmos ao ponto de mostrarmos que é em nós que têm de apostar. Mas isto pode demorar anos, pelo que é preciso ter cuidado quando assumimos esta estratégia.

Particularmente, assumi a primeira estratégia porque penso que essa será a mais segura, mas não descurei a segunda, executando-a em paralelo com a primeira, para garantir que um dia o projecto será uma realidade. Uma ginástica difícil mas possível. Pensar muito, falar e partilhar muito as opiniões e decisões pode parecer básico, mas sem dúvida é o essencial para um final feliz.

Em resumo, tem de existir um motivo muito forte, e com uma visão de futuro, para assumirmos um risco tão alto na criação de uma "start-up" para um único cliente chamado Estado. Em paralelo, devemos saber manter a melhor estratégia para alcançarmos o nosso objectivo. Tarefa que não é nada fácil, mas que espero dar-vos boas notícias um dia mais tarde.

Dicas

1. Criar um negócio para um único cliente é muito arriscado, principalmente se esse cliente é o Estado.

2. Tem de existir uma razão forte, um plano a médio prazo, uma visão de futuro, e accionistas que acompanhem o projecto até à sua concretização, caso contrário, o seu esforço será em vão.

3. Ter o Estado como cliente único pode ser muito arriscado, mas também pode ser um bom ponto de partida. Mas, cuidado, não relaxe depois de o conseguir porque este cliente é muito volátil.

in Jornal de Negócio Online, 12/06/09


Licenciado e Mestre em Gestão de Empresas. Presidente da Gesbanha, S.A., especialista em capital de risco e empreendedorismo, investidor particular ("business angels") e Presidente da FNABA (Federação Nacional de Associações de Business Angels). Director da EBAN e da WBAA

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