Ser empreendedor em tempos de crise

O Professor Ernâni Lopes sempre foi uma referência e inspiração para mim e cito as suas sábias palavras com frequência. O artigo que escrevi recentemente para o Jornal Poliempreende, do Instituto Politécnico de Lisboa.

 

 

 

Ser empreendedor em tempos de crise

 

Num momento em que as palavras “crise” e “recessão económica” assombram o dia-a-dia das pessoas e das empresas, evidenciando um sentimento generalizado de mau-estar e de alguma desorientação da sociedade, importa recordar as sábias palavras do Professor Ernâni Lopes que ainda recentemente afirmou que “momentos de crise sempre houve e haverá! O que conta não é lamentarmo-nos, mas antes buscar, com inteligência e esforço, novas soluções”. Temos, por isso, de aproveitar este momento desfavorável para descobrir novas oportunidades e traçar novos objectivos. Afinal, os maus anos também são de construir, criar, unir e encantar.

 

Um dos vectores de “solução” no qual acredito e no qual humildemente me reconheço é o Empreendedorismo. Não apenas o Empreendedorismo de criar empresas mas o Empreendedorismo como forma de estar na vida que leva os indivíduos a lutar pela força das suas ideias e pelo potencial dos seus sonhos.

 

Um empreendedorismo que alguns dizem que não se aprende mas que eu vejo ser assimilado pelas mais variadas gerações quando estas têm oportunidade de conviver com ele e de se surpreender com o empreendedor que afinal tinham já dentro delas. Aproveito para destacar a visão estratégica nesta matéria de muitos municípios portugueses, bem como das regiões autónomas – das quais os Açores são a mais recente a iniciar um programa de educação em empreendedorismo – que têm nos últimos anos realizado acções concretas na capacitação empreendedora das suas gerações mais novas.

 

Se todos podemos ser empreendedores na nossa vida, alguns procuram ir mais longe e ser também empreendedores no meio empresarial. A esses que são agora desafiados com as restrições inerentes à crise, nomeadamente com a diminuição da procura dos seus bens e serviços mas também com as dificuldades na concessão de crédito e em atrasos na tesouraria, é importante relembrar algumas das características empreendedoras que devem acentuar e que são transversais a todas as áreas de negócio. Estas características abordam-se normalmente na fase inicial de um negócio mas hoje, mais que tudo, num momento em que muitos negócios precisam de se recriar e procurar novas soluções para os seus desafios, estas características reassumem nova importância e podem ser determinantes para os empreendedores que as saibam adoptar.

  

Capacidade de inovação

Para inovar não basta dispor de uma nova tecnologia ou de um novo processo. Um cientista pode conceber uma nova solução para a cura de uma doença mas dificilmente a mesma sairá do laboratório se não forem criadas condições para industrializar, divulgar, comercializar e dar credibilidade ao produto em que essa solução poderá resultar. O empreendedor que inova é aquele que estabelece a ligação entre este novo recurso e as necessidades que existem no mercado por satisfazer. Por este motivo, o empreendedor é muitas vezes alguém que se posiciona em ambos ou entre estes três mundos da criação, da gestão e da comercialização e que consegue criar e gerir equipas multidisciplinares para que a inovação tenha sempre consciência do objectivo a que se destina.

 

 

Reconhecimento das oportunidades

O empreendedor reconhece que existe um momento e um conjunto de recursos cuja combinação é essencial para lançar um novo produto ou serviço. Acertar o time-to-market, os recursos financeiros, a equipa de trabalho, o mercado-alvo, o processo de desenvolvimento da tecnologia, os parceiros, entre muitos outros factores, pode exigir do empreendedor quase um “6º sentido” para perceber como deve optimizar a junção de todos estes meios.

 

 

Propensão para assumir riscos

Empreender é arriscar, seja o risco sobre o investimento financeiro, o próprio tempo ou as decisões que se tomam. O empreendedor tem de tomar consciência que, bem ou mal, ele vai lançar os dados sucessivamente sobre um tabuleiro de trabalho e sorte e que são estes que vão ditar se o risco foi ou não bem antecipado. É por isso essencial saber “jogar” com o risco e aceitar as pequenas derrotas com o mesmo entusiasmo e confiança com que se celebram as vitórias, sabendo à partida que a guerra se faz de sucessivas batalhas. Quantos empreendedores existem que se arrependem de não terem dado um determinado passo num dado momento de dificuldade da sua actividade e que por não o terem feito, acabaram por vir a ser ultrapassados pela sua concorrência que não receou arriscar .

 

 

Visão estratégica e capacidade táctica

O empreendedor tem de saber muito bem, e de forma muito clara, para onde quer ir, de forma a que possa optimizar os seus recursos (tempo, dinheiro, pessoas), evitando assim dissabores, tais como entrar em áreas geográficas que possuem especificidades culturais completamente diferentes ou em segmentos onde facilmente são derrotados pela concorrência, em virtude desta, muitas das vezes, ter qualidades – bom serviço, uma distribuição adequada, boa força de vendas que lhes permite servir de forma mais eficaz os seus clientes. A ausência de capacidade estratégica conduz à adopção de modelos de organização deficientes, ao nível das suas áreas funcionais, contribuindo assim para decisões pouco eficazes ao nível táctico e que se traduzem em erros de comunicação, definição de preço, escolha de canais de distribuição, implementação de sistemas de informação de gestão, entre outros.

 

Persistência

Quantos contactos comerciais são necessários para fazer a primeira venda? A quantos investidores tem de apresentar a ideia até conseguir financiamento? Quantos “não” vai ouvir ao longo da existência da sua empresa? A persistência pode muito bem ser o factor mais crítico de sucesso e ao mesmo tempo o mais difícil de gerir. São tantos os obstáculos, os constrangimentos e os desafios que, sem persistência, o empreendedor facilmente se vê derrotado pelas circunstâncias, pelo cansaço e pela desmotivação. A motivação é, aliás, um dos factores que mais pesa na capacidade de persistência. Definir objectivos de médio e longo prazo pode ser uma forma de alimentar a motivação e a persistência, bem como saber descansar e “desligar” momentaneamente dos problemas para que estes não afectem o discernimento do empreendedor durante a tomada de decisão.”

 

In Jornal Poliempreende- 28 de Novembro 2010


Licenciado e Mestre em Gestão de Empresas. Presidente da Gesbanha, S.A., especialista em capital de risco e empreendedorismo, investidor particular ("business angels") e Presidente da FNABA (Federação Nacional de Associações de Business Angels). Director da EBAN e da WBAA

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