Empreender é Crescer!

Francisco Banha e José Manuel Durão Barroso

Francisco Banha e José Manuel Durão Barroso

No contexto que Portugal vive actualmente, não poderia haver tema mais pertinente que não este: Empreender é crescer.

É sabido que o ambiente geral que se tem vivido nos negócios, ao longo dos últimos três anos, é de grande dificuldade. Em todo o caso a actual crise e o actual estado do País não poderiam manifestar-se mais apelativos à iniciativa individual e à capacidade que os indivíduos têm de criar.

O desenvolvimento económico de um país prende-se à capacidade que a iniciativa individual tem de se expressar. Pode-se dizer que uma empresa é uma forma criativa de criar emprego, aliás, cada vez mais acontece isto. Fenómenos como o Google ou o Facebook partiram da iniciativa de 2 ou 3 indivíduos. Bastou um projecto útil e diferente, e em 10 anos entraram na lista das pessoas mais ricas do mundo, e certamente que muitas pessoas conseguiram o seu posto de trabalho à conta disto.

Sou dos que acreditam que Portugal também tem talento e também tem uma comunidade de empreendedores capazes de antecipar tendências de mercados e de desenvolver negócios inovadores. Empreendedores que não têm apenas “boas ideias” mas que fazem acontecer, que têm a capacidade de por um protótipo a funcionar assumindo o perfil de “empreendedores de alto impacto”, na medida em que são detentores de projectos que se assumem competitivos no mundo global em que hoje vivemos, não só pela qualidade mas também pela inovação que oferecem.

São empreendedores com este perfil que constituem o exemplo, nesta conjuntura de crise profunda, de que não existem fatalidades irreversíveis e de que é sempre possível mudar o rumo das coisas. À custa de trabalho, de criatividade e, sobretudo, da capacidade de correr riscos.

Por outro lado compreendo que, com o agudizar da crise económica e social em que Portugal mergulhou, as difíceis medidas de austeridade e os níveis históricos de desemprego, com particular incidência na classe mais jovem, o sentimento de frustração e de angústia seja a forma de muitos jovens encararem o seu futuro em Portugal.

É um sentimento legítimo, porque expressa a preocupação destes jovens em ter de abandonar o seu país por não conseguir um emprego “decente”, em pagar demasiados impostos ou não terem a perspectiva de direito a uma reforma condigna.

Todavia, revela, por outro lado, desconhecimento sobre a existência de um importante conjunto de infra-estruturas de suporte à inovação e ao empreendedorismo que já existe no nosso País, bem como dos vários instrumentos de financiamento e das condições para deles poder beneficiar.

Porém e antes de entrar um pouco mais em pormenor sobre algumas particularidades do Ecossistema Empreendedor Nacional, que são pouco conhecidas da Sociedade em geral e dos empreendedores em particular, penso ser importante dar a conhecer algumas das iniciativas que sobre esta temática da criação de negócios de alto rendimento se estão a desenvolver a nível Comunitário.

De facto e em primeiro lugar assume particular importância o destaque que o Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, sempre deu ao tema do Empreendedorismo e dos seus principais actores como demonstra o reconhecimento que teve recentemente para com a Comunidade Europeia de Business Angels ao ter afirmado que os “ Business Angels have been playing an important role in Europe’s recovery, by financing start-ups that create jobs and by bringing European innovation to consumers and businesses worldwide. They are an essential element of the creativity, innovation and solidarity within our overall growth and jobs strategy”.

Certamente que esta liderança e este foco do Presidente da Comissão Europeia terá contribuído para que também recentemente a sua Vice-President Neelie Kroes, tenha dado um forte suporte à Direcção da EBAN – Associação Europeia de Business Angels – que recordo foi, até ao passado dia 19 de Maio, liderada pelo meu colega Paulo Andrez – para que apresentasse em forma de Manifesto um conjunto de politicas e acções que permitam contribuir para incrementar o mercado actual de investimento Early stage de 7.5 mil milhões de euros para 15 mil milhões de euros em 2017. Este manifesto hoje é uma realidade e pode ser inclusivamente subscrito em  http://www.startupinvestorsmanifesto.eu/ .

Tenho consciência que, para a generalidade dos leitores deste texto,  este tipo de iniciativas é visto com bastante cepticismo e provavelmente pouca credibilidade lhe é concedida. Recomendo, no entanto, que neste caso em particular da actividade de Business Angels não se deixem desmotivar, por esse tipo de juízo de valores, uma vez que ainda recentemente foi apresentado um Estudo realizado pela Deusto Business School e promovido, igualmente, pela EBAN que demonstrou o impacto decisivo que o investimento efectuado pelos Business Angels, em start-ups, possui ao nível das variáveis: Employment, Revenues, Assets, EBITDA;

De facto para que se possa ter uma ideia, e de acordo com o citado estudo, só ao nível da variável criação de postos de trabalho – tão prementes no seio da EU – é possível concluir que no momento em que os Business Angels investem numa “start-up” o número médio de postos de trabalho é de 5 elementos mas três anos após esse investimento esse número acaba por triplicar.

Muitos outros exemplos poderiam ser por mim apresentados, para demonstrar a importância destes novos Instrumentos de dinamização empresarial mas penso que chegou o momento de nos concentrarmos no Ecossistema Empreendedor Nacional que hoje temos e que cada vez tem vindo a beneficiar mais jovens com vontade de construir e de criar a sua independência em relação aos seus próprios projectos.

Por todo o País vemos Autoridades Municipais, Universidades, Associações de Business Angels, Incubadores de empresas, Aceleradoras de empresas, Plataformas de Crowdfunding, entre muitos outros, a providenciar gabinetes de apoio, formação dedicada, consultoria gratuita ou maior acessibilidade a capital, o que demonstra estarmos efetivamente no bom caminho para um Ecossistema mais completo e saudável.

Refira-se a propósito que nos últimos 3 anos, o Ecossistema Empreendedor fortaleceu-se com a emergência de várias aceleradoras e prestadores de serviços cada vez mais especializados, com novos programas de financiamento de Business Angels e de Capitais de Risco e envolvimento direto das universidades.

Não é assim de estranhar o aparecimento de um grande número de novas empresas de base tecnológica em várias áreas bem como a crescente internacionalização destas empresas. Falta agora os diversos agentes trabalharem mais em conjunto, reforçarem a rede internacional e focar em criar alguns casos de sucesso internacional.

Todavia, e anteriormente a tudo isto – iniciativas, programas estratégicos, modelos de negócio, métodos de gestão, formas de financiamento – há um requisito prévio de verificação indispensável sem o qual nada disto funciona.

Compete, em primeiro lugar, a cada um de nós reflectir sobre as próprias competências e saber que tipo de “empreendedorismo” devemos adoptar : Criar uma empresa? Reconverter-se profissionalmente? Renegociar as suas funções com a direcção da empresa? Mudar de região ou até mesmo de país?

Esta condição é essencial para que a nossa opção seja mais do que uma aposta num negócio viável à volta de uma ideia, e seja, acima de tudo, uma fonte de motivação e de realização pessoal, indispensável para ultrapassar todos os desafios que vão surgir.

Partindo do princípio que um número cada vez maior de Jovens portugueses já interiorizou que é possível lançar ou desenvolver uma empresa então importa ter presente que é preciso estar apto a identificar as formas de financiamento mais adequadas ao estágio empresarial em que, os seus projectos, se encontram.

Para o efeito penso ser interessante relembrar que, em períodos de crise e incerteza como aquele em que nos encontramos, se pode justificar procurar formas alternativas de investimento como o recurso às operações mezzanine em que se conjuga as características da dívida e do capital próprio, assumindo frequentemente a forma de empréstimo subordinado ou convertível em capital, ou ao quasi-equity em que se conjuga equity com receitas provenientes das vendas.

Por sua vez o recurso ao mercado de capitais, por via do Alternext, será seguramente outra importante fonte alternativa de financiamento para as start-ups portuguesas, permitindo-lhes o acesso a uma comunidade financeira que poderá contribuir para o reforço dos seus capitais próprios, liquidez das acções e captação de novos investidores.

Outra alternativa que poderá ser interessante para as start-ups portuguesas é o recurso ao financiamento de serviços (por ex.: de informática e de software), em regime de renting, permitindo à empresa tirar partido do retorno que possa gerar o seu investimento em termos de vendas, enquanto paga o serviço de forma diluída.

Existem ainda outras iniciativas mais vocacionadas à criação de emprego e visam sobretudo desempregados e jovens que procuram criar o seu posto de trabalho e que acreditam nas suas competências. Recordo-me em particular da linha protocolada entre a CGD, as Sociedades de Garantia Mútua (SGM) e a Sociedade de Investimento (SPGM) que permite financiamentos bonificados de 7 anos até 200.000€ (através dos Programas Microinvest e Invest+).

Creio, no entanto, que de entre as várias formas alternativas de financiamento às start-ups, os Business Angels são quem mais se tem assumido como investidores de excelência no financiamento de novos negócios. A comprovar esta realidade, temos os 153 investimentos por estes realizados em 95 empresas com menos de três anos de actividade, no valor global de 17.8 Milhões de Euros, no âmbito do Programa de Co-Financiamento com Business Angels promovido pelo COMPETE, que abrangeu um total de Fundos Disponíveis de 42 Milhões de Euros e um envolvimento de 200 Business Angels e 51 Entidades Veículo.

Acresce que aos montantes ainda disponíveis, 24 Milhões de Euros, da primeira Linha de Financiamento para Business Angels se adicionaram, recentemente mais 15 Milhões de Euros, como resultado do lançamento de uma segunda Linha de Financiamento que visa aumentar o número de Business Angels envolvido e que se encontra disponível até Setembro de 2015.

Contudo, estes investidores não estão interessados em investir em pequenas empresas, mas antes em “grandes empresas que ainda são pequenas”, ou seja, em start-ups que os levem a acreditar que irão crescer exponencialmente num tempo relativamente curto.

Para um conhecimento mais pormenorizado destas Linhas de Financiamento, quais os Business Angels envolvidos e as start-ups que já foram financiadas recomenda-se a consulta da página institucional da FNABA- Federação Nacional de Associação de Business Angels, através do seu endereço: www.fnaba.org.

Comparando estes dados com a informação disponível sobre os investimentos realizados pelas Sociedades de Capital de Risco, a discrepância é notória, pois apesar de as SCR terem mais dinheiro para investir (com um total dos Fundos Disponíveis de 187 Milhões de Euros) estão a fazê-lo (39 projectos realizados no valor de 29 Milhões de euros) a um ritmo muito mais lento do que os Business Angels, privilegiando os investimentos nos estágios de desenvolvimento mais avançados e a não privilegiar os projectos que se encontram nas fases de seed capital e start-up.

Merece, no entanto, uma referência especial o facto de a Sociedade de Capital de Risco, detida maioritariamente pelo Estado Português, mais concretamente a Portugal Ventures, estar neste momento no período de recepção de candidaturas à 7ª edição da Call For Entrepreneurship a qual possibilita o acesso a investimento de capital de risco de projetos inovadores de base científica e tecnológica em fase Seed Capital.

Os projetos selecionados pela Portugal Ventures – orientados a produto, baseados em I&D referenciado internacionalmente, inovadores e únicos, posicionados em cadeias de valor globais, implementáveis com recursos disponíveis, com tecnologia apropriável e um significativo potencial de mercado global – beneficiarão de um investimento entre 100 a 750 mil euros, num máximo de 85% do orçamento do projeto. Tecnologias de Informação e de Comunicação, Eletrónica & WEB, Ciências da Vida e Recursos Endógenos, Nanotecnologia e Materiais são os setores de investimento privilegiados.

 

Para concluir, resta-me, deixar uma mensagem de grande esperança:

Esperança de que a afectação dos Fundos de Business Angels e de Capital de Risco, actualmente disponíveis, se venha a manifestar de forma expressiva em dezenas e dezenas de novos projectos e, consequentemente, na criação de uma nova vaga de empreendedorismo de alto impacto no nosso País.

Uma vaga de empreendedorismo que, à semelhança dos navegadores de outrora, seja capaz de alcançar a vitória sobre circunstâncias adversas. Que seja capaz de inverter o actual estado das coisas e que, com inovação, competência, qualificação técnica e visão global, alcance a tão necessária transformação do País.

A aventura contemporânea de Portugal deverá, mais do que nunca, ser entregue aos nossos empreendedores, pois são estes que serão capazes de percorrer os caminhos que nos levarão de regresso ao crescimento económico sustentável.


Licenciado e Mestre em Gestão de Empresas.

Presidente da Gesbanha, S.A., especialista em capital de

risco e empreendedorismo, investidor particular (“business angels”). Director da EBAN e da WBAA

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