Business Angels de olho no Ambiente e Energia

Num momento em que as palavras “crise” e “recessão económica” assombram o dia-a-dia das pessoas e das empresas, evidenciando um sentimento generalizado de mau-estar e de alguma desorientação da sociedade, recordo as sábias palavras do meu falecido professor e amigo Ernâni Lopes que defendia que “momentos de crise sempre houve e haverá! O que conta não é lamentarmo-nos, mas antes buscar, com inteligência e esforço, novas soluções”. Temos, por isso, de aproveitar este momento desfavorável para descobrir novas oportunidades e traçar novos objectivos. Afinal, os maus anos também são de construir, criar, unir e encantar.

Congratulo-me por ver que este espírito de incentivo à inovação está presente na revista Indústria e Ambiente com a organização de mais uma edição do “Prémio Nacional de Inovação Ambiental” que destaca anualmente as empresas que se posicionam na fileira da inovação valorizando assim os empreendedores que as lideram e que ao optar por introduzir novas tecnologias e novos modelos de negócio representam o futuro do sector.

Mais do que nunca é essencial apoiar a inovação no domínio do ambiente e energia, em particular quando se trata de um sector que está tão ligado à economia e à sociedade. Se vamos já tarde para prevenir as sérias alterações climáticas de que somos ameaçadas, vamos pelo menos a tempo de reagir minimizando-as e porque não fazê-lo de forma a valorizar também a nossa economia que vê aqui uma oportunidade de explorar um sector onde os nossos recursos abundam, ao contrário do modelo energético assente em combustíveis fósseis que tem até agora vigorado?

Cabe tanto às empresas actuais como às jovens start-ups este papel de mudança que pode ter um impacto muito significativo no nosso país. Às empresas emergentes, aquelas que exploram novas técnicas estudadas em laboratório ou as que trazem novos modelos de negócio cabe o papel de inovar, introduzindo técnicas disruptivas e vanguardistas que fazem questionar se serão esses os modelos do futuro. Às empresas já instaladas, cabe também inovar pela sua própria investigação, mas também apoiar estas novas gerações, quer comprando os seus produtos e serviços inovadores, quer assumindo um papel ainda mais activo investindo nelas, conscientes de que pode ser esse o seu futuro.

No contexto de restrição em que vivemos, não se pode esperar que seja o Estado a financiar projectos inovadores nesta área, muito menos se deve esperar que é a banca que cabe apoiar estes projectos cuja incerteza é habitualmente demasiado elevada para os seus padrões de risco. Restam duas vias: crescer pelas vendas e crescer pelo investimento. Se para alguns destes projectos inovadores crescer pelas vendas é suficiente para financiar a sustentabilidade e crescimento da empresa, para outros é inevitável o investimento de risco e é aqui que entra o papel quer das empresas mais maduras que podem investir nas emergentes, quer do sector de capital de risco nacional.

O CAPITAL DE RISCO E OS SECTORES DA ENERGIA E AMBIENTE

De acordo com as estatísticas da Associação Portuguesa de Capital de Risco e Desenvolvimento (APCRI), foram investidos no ano passado 5,3 milhões de euros em empresas relacionadas com os sectores da Energia e Ambiente, um valor bastante inferior ao que se tinha verificado em 2009 de €23,9 milhões. Se tivermos em conta o valor de investimento por empresa, este sofre também uma retracção de 3 milhões de euros para 900 mil euros por investimento realizado. Dados estatísticos proporcionam-nos médias e não poderemos nunca determinar quantas destas empresas eram start-ups mas se a tendência de investimento foi negativa, o valor investido por empresa levanta a possibilidade de estarmos a assistir a investimentos em fases mais iniciais de desenvolvimento das empresas. Para mim, essa é a tendência a que precisamos de assistir.

Nos últimos anos Portugal tem sido palco do aparecimento de um novo tipo de investidores: os “Business Angels”. Os “Business Angels” são investidores individuais, normalmente empresários ou directores de empresas, que investem o seu capital, conhecimentos e experiência em projectos liderados por empreendedores que se encontram em início de actividade. O objectivo dos investimentos é a sua valorização a médio prazo, na expectativa da alienação posterior a outros interessados.

Há vários anos que defendo que este tipo de investidores é essencial para o desenvolvimento económico de Portugal, uma vez que garantem o financiamento entre o período que tem origem na criação da empresa e o momento em que os projectos em que investem ganham a dimensão suficiente para serem apelativos junto dos investidores clássicos de capital de risco.

Segundo o relatório publicado pela Associação Europeia de Investidores Early Stage (EBAN), o denominado sector das “clean tech” – que inclui todos os negócios relacionados com o ambiente e energias limpas – tem sido bastante procurado por estes investidores representando 10% dos seus investimentos, ou seja, 27,6€ milhões de euros investidos pelo sector early stage Europeu.

Também em Portugal há espaço para os Business Angels e outros agentes focados nestas fases iniciais de desenvolvimento se interessarem pelo ambiente e energia.

INVESTIMENTO EM START-UPS

Surgiram este ano no nosso País novos fundos de early stage no valor de 87 milhões de euros, os quais terão de ser aplicados obrigatoriamente em novos negócios até ao final de 2013.

Por sua vez, a comunidade Portuguesa de Business Angels deu um passo histórico ao aderir em grande número ao novo Fundo de Co-investimento promovido no âmbito do Programa Compete, que foi criado especificamente para as fases mais iniciais de investimento e que conta com uma capacidade de investimento de 42 milhões de euros, alavancada por mais de 200 Business Angels através de 54 entidades veículo.

Refira-se a propósito que tendo ficado operacional em finais do passado mês de Fevereiro a formalização dos contratos de financiamento estabelecidos entre cada uma das 54 entidades veículo e a PME Investimentos- Sociedade Gestora do citado Fundo de Co-Investimento – estas entidades já efectuaram 11 investimentos em novas empresas num total de 2.7 milhões de euros criando assim fortes expectativas de que os próximos meses serão caracterizados por um forte número de investimentos por parte da Comunidade de Business Angels nacionais.

Estamos assim perante uma oportunidade inigualável para o financiamento da inovação nos sectores da energia e ambiente e isto traduz-se em potenciais investimentos em empresas de inúmeros sub-sectores. Desde a geração eólica e solar às soluções relacionadas com o tratamento de água ou à grande incerteza que pesa ainda sobre a massificação dos veículos eléctricos, são inúmeras as oportunidades que para além de terem grande potencial em Portugal estão também na linha da frente das soluções que estão neste momento a interessar investidores de todo o mundo. Com isto concretizam-se três factores que são muito importantes para os Business Angels: 1) alavancagem do investimento graças ao recurso ao fundo de co-investimento; 2) sector de elevado potencial e incerteza e 3) mercado escalável e naturalmente global.

Investigadores universitários, gerentes de start-ups ou mesmo empresas já implantadas e com planos de crescimento devem olhar seriamente para este cenário e avaliar se está na altura de avançar com “aquele” projecto. Os investidores estão atentos mas os promotores também têm de dar a conhecer as suas ideias. A Federação Nacional de Associações de Business Angels representa actualmente 10 Associações regionais de Business Angels, distribuídas de norte a sul do país que procuram activamente projectos com elevado potencial de crescimento.

Eu próprio, enq
uanto Business Angel e Presidente do Business Angels Club, deixo o desafio a todos os empreendedores com negócios que se encontram em estado latente nos sectores da Energia e Ambiente, dêem um passo em frente e se venham apresentar nos próximos dias 28 e 29 de Junho, no Taguspark, a uma plateia de investidores nacionais que participarão na XI edição do Venture Capital IT -www.gesventure.pt/vcit2011- um palco que já apadrinhou muitos dos investimentos nacionais de capital de risco.

Tenho a certeza que se os investidores virem os 4 Ms que procuram em start-ups, nomeadamente o Management (a equipa de gestão certa para o projecto certo), o Market (um mercado pronto e ávido para receber a nova oferta), o Money (um plano que permite multiplicar várias vezes o valor investido no espaço de 3-5 anos) e – o mais importante de tudo – a Magic (aquele factor disruptivo que faz brilhar de entusiasmo o olhar do empreendedor e do investidor), não haverá desculpas para deixar passar esta oportunidade única que faz deste não só um momento único no capital de risco Português, como um case study Europeu.


Licenciado e Mestre em Gestão de Empresas. Presidente da Gesbanha, S.A., especialista em capital de risco e empreendedorismo, investidor particular ("business angels") e Presidente da FNABA (Federação Nacional de Associações de Business Angels). Director da EBAN e da WBAA

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